Entrevista com Yukihiro “Matz” Matsumoto – Parte 3

Parte 3 (e final) da entrevista na RubyConf China com o criador de Ruby, Yukihiro “Matz” Matsumoto. A tradução para o Português é de minha autoria e a versão em Inglês pode ser lida no blog de Fred Wu. Se você perdeu as outras partes, clique aqui para acessar a parte 1.

<- Ir para a Parte 2

Zhou: Você mencionou MRuby ontem e o tópico da sua apresentação amanhã será Ruby 2.0. Você poderia falar um pouco sobre os destaques em MRuby e Ruby 2.0?

Matz: Como discutimos anteriormente, MRuby é desenvolvida para rodar já embarcada em dispositivos, ela não tem tudo o que Ruby possui. Como resultado, muitos equipamentos que tradicionalmente não podem utilizar Ruby, como máquinas de venda, controladores e robôs vão em breve poder utilizar MRuby. Talvez em alguns anos, nós possamos ver Ruby sendo usado em computadores e carros.
Ruby 2.0 indica duas mensagens. Primeiramente, no próximo ano o desenvolvimento de Ruby terá completado 20 anos. Que melhor número de versão pode haver para celebrar esse momento especial?! Contrário ao que pode parecer, da [versão] 1.9 à 2.0 as mudanças não foram tão grandes como da 1.8 para a 1.9. Na verdade, nossa meta para a 2.0 é que ela seja compatível por completo com a 1.9. Seus aplicativos 1.9 devem rodar sem problemas na 2.0 [o contrário, no entanto, não é necessariamente verdade].

Em segundo lugar, Ruby 2.0 oferece alguns novos recursos. Por exemplo, usar monkey patching para adicionar ou substituir funcionalidades tem efeitos globais e pode causar conflitos e bugs. Para evitar situações tais como essa, Ruby 2.0 limita o escopo de monkey patching por meio de Refinements. Conforme equipes maiores e projetos maiores adotam Ruby, o monkey patching com escopo controlado irá mostrar sua importância. Há muitas outras funcionalidades em Ruby 2.0 que foram desenvolvidas para atender a times e projetos grandes.

 

Zhou: Até onde eu sei, a maior parte das linguagens de programação populares são da América e da Europa – entretanto existem Lua, do Brasil, e Ruby, do Japão. Você também mencionou isso em seu livro e você disse que a sensação é de solidão. Então, qual é a causa disso e o que podemos fazer a respeito?

Matz: Bem, em relação à Lua você pode incluir ela em América / Europa também porque o Brasil é parte da América do Sul (risadas). No sudeste asiático, no entanto, há apenas Ruby e é solitário. Europa e América ainda permanecem as regiões mais poderosas no que concerne linguagens de programação. A Ásia, apesar de sua população massiva, não compete nisso, e a sensação é mesmo a de solidão.
Eu não tenho certeza em relação a outros países, mas no Japão pelo menos há diversas pessoas trabalhando no desenvolvimento de linguagens de programação, infelizmente nenhuma outra além de Ruby é bem conhecida. Se mais pessoas estão interessadas em programação e na criação de linguagens de programação, tem de haver uma ou outra que vão se destacar, certo? Há outro obstáculo no Japão: linguagem. A maior parte dos japoneses fala apenas Japonês e não consegue falar Inglês bem. Por mais engraçado que possa parecer, há linguagens de programação escritas inteiramente em Japonês. (Zhou: Na China também há linguagens de programação escritas inteiramente em Chinês). Na China também? Eu suspeitava! Não importa o quão interessantes essas linguagens sejam, elas nunca vão influenciar alguém além das pessoas do seu próprio país.

Fazendo um comentário à parte, eu uma vez recebi um email de um americano. Ele disse: “Você é japonês, mas Ruby parece ser americana porque é escrita em Inglês, por que não há linguagens de programação escritas em Japonês?” Eu respondi dizendo que existiam sim linguagens escritas em japonês, só que ele não as conhecia e, mesmo que o fizesse, não seria capaz de as utilizar.

No Japão, mais e mais pessoas estão interessadas em programação, talvez porque tanto online quanto em meus livros eu sempre falo o quão divertido programação pode ser. Muitas pessoas estão agora encarando o desafio de desenvolver novas linguagens de programação. Dessas novas linguagens, mesmo que apenas 0,1 % delas tenham algum sucesso, eu acho que é uma vitória. Eu não sei quantas pessoas querem encarar o mesmo desafio na China, Coréia e em outros países da Ásia, mas se as pessoas pudessem olhar além de “linguagens de programação são criadas para nós, nós apenas passivamente as aceitamos” e pensassem “criar novas linguagens de programação pode também ser divertido”, então eu tenho certeza que algumas delas terão sucesso.

Falando sobre projetos open source, não são muitos deles que são do Japão, China e Coréia, e eu acho que esse pode ser um ponto de partida para muitos [desenvolvedores]. Há muitas razões para isso, por exemplo a de que Inglês é difícil de aprender… (Zhou: E o GitHub também é difícil de usar?) Haha, o GitHub pode ser acessado da China? (Zhou: Pode sim, pode sim…) Ah, então até que não é tão ruim assim. Mas o Grande Firewall da China ainda tem um enorme impacto, muitos recursos não podem ser acessados daqui, certo? (Zhou: É verdade, por exemplo o site da linguagem de programação Go é bloqueado.) Sério? Isso é porque ela é feita pelo Google? (risadas) De qualquer forma, eu acho que ainda há muitas dificuldades para encarar. Também, no Japão muitos programadores ainda passam a maior parte do tempo trabalhando (para botar comida na mesa), é muito difícil para eles contribuírem para projetos open source. Há dez anos ninguém ligava para open source no Japão, mas atualmente as pessoas estão começando a perceber a importância do open source, e o número de projetos open source está crescendo. Eu acredito que a China em breve vão seguir esse padrão também, eu estou aguardando por isso.

No começo ninguém sabe o que vai ter sucesso. Quando eu comecei com Ruby, eu não poderia ter previsto o seu sucesso. Então eu acho que para uma linguagem de programação, o tempo correto é muito importante – e você nunca saberá até você ter tentado. Eu acho que na China podem também haver linguagens que vão emergir no tempo certo e irão acabar se tornando sucesso global.

 

Zhou: No livro, quando você está falando sobre Dart, você menciona que o ecossistema [de desenvolvimento] é muito importante para uma linguagem de programação. O que é preciso fazer para garantirmos um bom ecossistema?

Matz: Do ponto de vista do usuário, a coisa mais importante é quais benefícios a linguagem de programação pode oferecer. Antes de Rails aparecer, muitos usuários de Ruby, incluindo eu próprio, achavam Ruby uma linguagem amigável, e esse era o motivo pelo qual gostávamos de a usar. Depois que Rails nasceu, mais e mais pessoas gostam de usar Ruby porque é muito produtivo desenvolver sistemas Web usando Rails. Então eu acho que se você puder comunicar aos seus usuários quais são os benefícios por usar a sua nova linguagem de programação, isso irá ajudar com sua adoção e aumentar as chances de sucesso.

 

Zhou: Muito obrigado, Matz! Você tem mais alguma coisa para dizer aos programadores chineses?

Matz: No livro The World of Code eu mencionei que a programação provavelmente vai se desenvolver e evoluir na forma de código aberto. Novas gerações de linguagens de programação e softwares provavelmente vão emergir como projetos open source. As pessoas estão felizes em usar o software livremente desenvolvido por outras, e se inspirar por isso, e trabalhar em seus próprios projetos open source e causar um pequeno impacto no mundo – aí você se torna um engenheiro de software de nível mundial. Os engenheiros de software que eu encontro na China são todos muito trabalhadores e adoram aprender. Espero que mais dessas pessoas assumam o desafio, e se tornem programadores de nível mundial que irão causar um bom impacto.

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Um pensamento sobre “Entrevista com Yukihiro “Matz” Matsumoto – Parte 3

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